Atenção Siga-nos no Instagram SIGA-NOS

Camila Ya'akov

Os Gentios e as Leis Judaicas

10 Mins read

Por: Camila Ya’akov

Colar com magen David sobre Tanakh em hebraico. [Foto: Steve Allen]

O judaísmo possui um conjunto de 613 mitzvot (mandamentos) que devem ser observados pelos judeus. A partir dessa informação, muitas dúvidas surgem na cabeça dos gentios (não-judeus) e algumas conclusões acabam sendo confusas. Diante de algumas publicações e comentários que tenho visto na internet, decidi esclarecer um pouco sobre o assunto.

Nota: Este texto é de bat Noach para curiosos e outras pessoas não praticantes do judaísmo, dentro das limitações que me são permitidas enquanto bat Noach. As fontes das informações serão, principalmente, da Chabad e serão citadas ao final do texto.

A fé judaica

Como toda fé, a fé judaica se baseia em princípios. No livro Fatos Fundamentais do Judaísmo!, do rabino Nissan Dovid Dubov, ele lista 6 princípios fundamentais a fé judaica. De maneira mais completa, Maimônides, autor da mais conceituada e completa codificação das leis judaicas, a Mishnê Torá, traz 13 princípios (aos quais os princípios citados pelo rav Dubov já eram apresentados):

  1. Creio com plena fé que D-us é o Criador de todas as criaturas e as dirige. Só Ele fez, faz e fará tudo.
  2. Creio com plena fé que o Criador é Único. Não há unicidade igual à d’Ele. Só ele é nosso D-us; Ele sempre existiu, existe e existirá.
  3. Creio com plena fé que o Criador não é corpo. Conceitos físicos não se aplicam a Ele. Não há nada que se assemelhe a Ele.
  4. Creio com plena fé que o Criador é o primeiro e o último.
  5. Creio com plena fé que é adequado orar somente ao Criador. Não se dever rezar para ninguém ou nada mais.
  6. Creio com plena fé que todas as palavras dos profetas são autênticas.
  7. Creio com plena fé que a profecia de Moshê Rebênu é verdadeira. Ele foi o mais importante de todos os profetas, antes e depois dele.
  8. Creio com plena fé que toda a Torá que se encontra em nosso poder foi dada a Moshê Rebênu.
  9. Creio com plena fé que esta Torá não será alterada e que nunca haverá outra dada pelo Criador.
  10. Creio com plena fé que o Criador conhece todos os atos e pensamentos do ser humano.
  11. Creio com plena fé que o Criador recompensa aqueles que cumprem Seus preceitos e pune quem os transgride.
  12. Creio com plena fé na vinda de Mashiach. Mesmo que demore, esperarei por sua vinda a cada dia.
  13. Creio com plena fé na Ressurreição dos Mortos que ocorrerá quando for do agrado do Criador.

Apenas com esses 13 princípios você já consegue entender, por exemplo, o motivo de os judeus não verem Jesus da mesma forma que os cristãos. Os cristãos costumam citar João 1:1-4 para explicar que 1. Jesus (Verbo) era parte de D’us ou 2. Jesus e D’us são um (D’us encarnado). A explicação varia de acordo com a denominação cristã, mas essas seriam as principais respostas. Já no judaísmo, essas explicações são derrubadas com os princípios 2 e 3 acima listados.

Entre outras questões envolvendo Jesus, a principal é sobre ele ser ou não o messias. Para os cristãos, ele é. Para os judeus, ele não cumpriu com as profecias do Massiach, então não é. Os cristãos aguardam a volta do messias, os judeus aguardam a vinda. O messias cristão, diferentemente do Massiach judaico, não é um líder político. Um bom ponto para explicar o motivo de os judeus não verem Jesus como Massiach é o fato de o Terceiro Templo não estar construído. São pequenos detalhes, mas que para o judaísmo importam e muito. Logo, se o judeu não vê Jesus como o cristão vê, seus símbolos, suas práticas, seus princípios, nada no judaísmo é em referência a Jesus.

A Torah

A palavra Torah significa “ensinamento”. É o ensinamento de D’us para o homem. Esse ensinamento foi dado a todo o povo judeu no Monte Sinai, por intermédio de Moshe (Moisés). Temos então Torah escrita e Torah oral. Torah escrito são os cinco livros de Moshê, que também podem ser chamados de Chumash. Torah oral são os ensinamentos passados de geração para geração literalmente via oral. D’us deu a Torah oral a Moshe no Monte Sinai juntamente com a Torah escrita. É através do estudo da torah (escrito e oral) e do cumprimento das mitzvot que o judeu cumpre o propósito da criação de fazer uma morada para D’u neste mundo.

Os 613 Mandamentos (Mitzvot)

Ao todo, na Torah, há 613 mandamentos, sendo 248 mandamentos positivos (obrigações) e 365 mandamentos negativos (proibições). Muitas dessas mitzvot não podem ser cumpridas atualmente pois são muito específicas. Por exemplo, há mitzvot referentes a ofertas e sacrifícios e eles só podem ser realizados no Beit haMikdash (Templo Sagrado) e, não o temos. Outras são referentes ao modo de tratamento de escravos e, atualmente, judeus não tem escravos. E, se tivessem, muito provavelmente estariam desobedecendo as leis do país em que vivem e a Torah ensina que deve-se cumprir com as leis do país.

Então, quando falamos que o judeu deve cumprir com as 613 mitzvot, falamos do povo judeu como um todo e não do indivíduo judeu. Há mitzvot que só podem ser realizadas pelo sacerdócio e o sacerdócio é composto por uma minoria dentro da comunidade judaica. Os demais judeus cumprem com as mitzvots cabíveis a sí. Por exemplo, as kashrut são para todos os judeus, mas os homens devem usar a kippah e o tefilin e as mulheres não tem essa obrigação.

Todas as 613 mitzvots estão de acordo com os 10 mandamentos.

O Dez Mandamentos

Os Dez Mandamentos foram ditos por D’us a toda nação judia, por intermédio de Moshe, e escritos em duas tábuas de pedra. Posteriormente, Moshe os escreveria em um rolo de pergaminho, denominado Sêfer Torah. São eles:

  1. Eu sou o Senhor seu D’us. Creia em D’us.
  2. Não tenha outros deuses e ídolos.
  3. Não mencione o nome de D’us em vão.
  4. Guarde o Shabat.
  5. Honre seu pai e sua mãe.
  6. Não cometa assassinato.
  7. Não cometa adultério.
  8. Não roube (ou sequestre).
  9. Não dê falso testemunho.
  10. Não cobice (ou tenha inveja) do que pertence a seu próximo.

Ao contrário de que algumas pessoas dizem na internet, em especial cristãos defendendo a sua fé, os Dez Mandamentos não são o que os judeus chamam de leis universais, apesar de que algumas são sim cumpridas universalmente. Quem afirma que sejam leis universais se embasa no fato de ser proibido assassinar e ser adúltero e até mesmo da influência dos Dez Mandamentos em leis civis, mas muitas vezes quer defender o mandamento de guardar o sábado, já que há denominação cristã que o faz.

Pela Torah, o gentio é proibido de guardar o sábado, isso quer dizer que o gentio é proibido de se abster, por motivos religiosos, dos 39 trabalhos proibidos aos judeus nesse dia. Também é proibido guardar o Shabat em outro dia da semana. O gentio pode, se quiser, honrar o Shabat de outras formas.

Os bnei Noach lembram do Shabat lendo os versículos da Torah que falam sobre a criação do mundo, fazem um kidush apropriado a sua condição de bnei Noach, fazem a benção dos alimentos, podem unir família e amigos em um jantar e realizar conversas que fortaleçam suas conexões com D’us. As mulheres podem acender velas, mas não devem recitar a benção das velas. Porém, os bnei Noach não são judeus. Eles são gentios que aceitaram os preceitos judaicos e praticam as leis universais ou As Sete Leis de Noach (Noé) previstas na Torah. É parte da sua missão assegurar que o mundo continue em funcionamento mesmo no Shabat.

As Setes Leis de Noach ou Sete Leis Universais

As Setes Leis de Noach são leis morais e éticas que ultrapassam o judaísmo e devem ser difundidos entre todas as nações. Uma das responsabilidades dos judeus é influenciar que essas leis sejam cumpridas, que são:

  1. Acredite em D’us. Não sirva a ídolos.
  2. Não blasfemar.
  3. Não roubar.
  4. Não cometer homicídio.
  5. Não cometa adultério e não manter relações incestuosas.
  6. Estabelecer tribunais de justiça e cumprir com as leis do país.
  7. Não coma um membro de um animal vivo e não seja cruel com os animais.

Agora que temos listadas as Sete Leis de Noach fica fácil entender a confusão entre as leis universais e os Dez Mandamentos. Não é errado afirmar que há leis universais que fazem parte dos Dez Mandamentos mas nem todos os Dez Mandamentos são universais, como já vimos.

Essas Sete Leis são vistas como diretrizes gerais e os rabinos explicam que os bnei Noach também devem rezar, fazer caridade (tzedakah, que, apesar de parecido, difere do dízimo moderno e não é apenas referente aos sacerdote, mas ao necessitado e viúvas também), honrar os pais e todos os outros mandamentos que lhes forem permitidos. Por exemplo, se os bnei Noach quiserem seguir as kashrut, eles podem. Porém, as kashrut (regras de alimentação kasher) não são uma lei universal, logo os bnei Noach não são obrigados a cumprirem com elas (excetuando os mandamentos como “comer carne crua” ou “ingerir sangue”, que são referentes a “não coma um membro de um animal vivo”), diferente do judeu, que é.

Os bnei Noach são orientados por rabinos para entenderem melhor seu papel neste mundo e também possuem direito ao mundo vindouro. Quando falamos que o povo judeu foi o povo eleito, ele foi o povo eleito para guardar a Torah e orientar as nações e não necessariamente para ser salvo. Se tivesse sido eleito para a salvação, não haveria a necessidade de cumprir as mitzvot. No judaísmo, a salvação vem pelo cumprimento da lei.

As Sete Leis foram dadas por D’us a Noach e, obviamente, antecedem as leis de Moshe e os Dez Madamentos. No período pós criação do mundo e do homem até Noach não havia aliança estabelecida por D’us com os homens.

Direito e o Pensamento Judaico

Se você parar para reparar nos nossos sistemas de leis, você verá que ele engloba algumas das leis já citadas aqui, especialmente “fazer tribunais de justiça”, “obedecer as leis do país”, “não assassinar”, “não roubar”, “não maltratar animais”. Isso por quê, como também já dito anteriormente, são leis universais que ultrapassaram o pensamento judaico e devem ser disseminadas a todas as nações.

De acordo com Prosper Weil em sua obra O Direito Internacional no Pensamento Judaico, a ideia de que o cristianismo seria um complemento do judaísmo fez com que as pessoas tratassem o judaísmo como um mero antecedente histórico do cristianismo, levando a pensar que as influências judaicas no Direito Internacional fossem, na verdade, cristãs.

O autor também observa que as Leis de Noach se aproximam e muito do conceito de jus natura et gentium (Direito Natural) e que também serviram de fonte para elaboração das leis de Direitos Humanos e Direitos Internacionais do Homem. Menciona ainda Rambam (Maimônides) para dizer que o homem que age coma razão tende a se aproximar das Leis de Noach, depois de comentar que mesmo que estas leis não tivessem sido dadas ao homem, eles as encontraria.

Não existindo um estado teocrático, as leis civis, mesmo em Israel, serão baseadas nas Leis Universais e continuarão de acordo com a Torah.

Levítico, a Aliança de D’us com Israel e as festas judaicas

Há uma confusão enorme quanto a Levítico e a Aliança com Israel entre os gentios, especialmente nos cristãos. Essa confusão, assim como muios dos pontos já citados nesse texto, se deve ao fato de que o cristão analisa o judaísmo da ótica cristã e ignora completamente que o judaísmo seja o que é: o judaísmo. Muitos se defendem dizendo que “Jesus era judeu” ou que sabem que é diferente, mas quando falamos sobre o Massiach, ignoram completamente a parte de que seja diferente. Aqui, vale o comentário de Prosper Weil já citado, sobre enxergarem o judaísmo como um mero antecedente histórico (ou um esboço do cristianismo).

Para o cristão, a partir do momento que houve a Nova Aliança, Levítico perdeu sua validade – excetuando as leis universais, que o cristão também diz que sejam os Dez Mandamentos. Porém, há quem resuma Levítico a “leis sacerdotais” e a realidade não é essa.

Levítico dispõe de muitas leis que aparecem também em Êxodo, por exemplo. Em Levítico você acha as kashrut, as relações ilegais, legítima defesa e defesa de propriedade (Direito Natural com influência das Setes Leis, lembra?), leis de recato, sobre tatuagens, etc.

Para o judeu, Levítico não perdeu sua validade e muitas das leis lá dispostas são mandamentos eternos. Um mandamento eterno é um mandamento dado por D’us aos judeus para que fosse cumprido por todas as gerações, geração após geração. Um bom exemplo de um mandamento eterno é a brit milah (circuncisão). Ela é o sinal da Aliança de D’us com o povo judeu. Outro bom exemplo é a festa de Pessach, em Êxodo, e como deve ser celebrada.

Além da festa de Pessach há mais oito celebrações judaicas descritas na Torah que os judeus cumprem até hoje. Como para o judeu o Massiach ainda não veio, não há Nova Aliança, as leis são válidas e devem ser cumpridas e o que está disposto no chamado Novo Testamento não tem validade alguma dentro do judaísmo. O judeu que cumpre com Levítico e com as celebrações o faz por que é judeu e não por mera herança cultural, mesmo que se declare ateu.

Devemos ressaltar que a história do povo judeu é indissociável da Torah. Aqueles acontecimentos são a história do povo judeu. Nada invalidará isso!

Referências:
DUBOV, Rabbi Nissan Dovid. As Perguntas Mais Frequentes do Judaísmo, pg 61-65. Editora Chabad, São Paulo, Brasil, 2014.
DUBOV, Rabbi Nissan Dovid. Fatos Fundamentais do Judaísmo. Editora Colet Torat Menachem, São Paulo, Brasil. 2004. ISBN: 8-85516-35-6.
WEIL, Prosper. O Direito Internacional no Pensamento Judaico. Editora Perspectiva, São Paulo, Brasil, 1985. ISBN: 852730435-x.
GERENSTADT, Rav Yacov. Bnei Noach pode guardar Shabat?. Publicado em 01 de Janeiro de 2020. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Bnei Noach Brasil.
As Setes Leis Universais. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Chabad.org.
Halacha. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em CJB.org.
Cashrut: Um Conceito Saudável. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Chabad.org.
Leis de Cashrut. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Chabad.org.
13 Princípios. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Chabad.org.
Perguntas & respostas: Lei Judaica. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Chabad.org.
Os 10 Mandamentos. Acessado em 05 de Março de 2020. Disponível em Chabad.org.

Related posts
Camila Ya'akov

A questionável opinião de um editor do UAP

8 Mins read
Há algum tempo atrás, recebi um artigo no Albany Student Press com informações duvidosas. Aqui, mostro o motivo. Compartilhe isso:TwitterFacebookCurtir isso:Curtir Carregando...
Camila Ya'akov

Página "Sempre Freud" faz publicação antissemita e nega o Holocausto

2 Mins read
O autor, que tem uma página dedicada a um judeu célebre, ainda cita Jesus Cristo, outro judeu, ao final da postagem. Compartilhe isso:TwitterFacebookCurtir isso:Curtir Carregando...
Camila Ya'akov

E essa série aí? Conheça "Hunters", da Amazon

4 Mins read
Série da Amazon já ganhou diversos fãs e críticas. Mas afinal, do que se trata Hunters? Compartilhe isso:TwitterFacebookCurtir isso:Curtir Carregando...
Power your team with InHype

Add some text to explain benefits of subscripton on your services.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: