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Camila Ya'akov

Belaynesh Zevadia: de refugiada a embaixadora

7 Mins read

Por: Camila Ya’akov

Belaynesh Zevadia, 2018. [Colin Boyle/Daily Northwestern]

“Deixei a Etiópia quando ainda era criança e agora voltei como embaixadora de Israel! Este é um dos momentos mais emocionantes da minha vida”, declarou Belaynesh Zevadia em agosto de 2016, quando retornou a Etiópia.

Belaynesh Zevadia nasceu em Gondar, um vilarejo onde judeus, que acredita-se serem uma das 10 tribos perdidas de Israel, viveram por mais de mil anos. Cresceu em Ambober, sendo a mais nova de 8 filhos de Gate, seu pai, e Addis, sua mãe. Foi criada dentro da fé tradicional.

A época de seu nascimento, a Etiópia estava sob o poder do imperador Haile Selassie, ao qual Zevadia diz ter se entristecido com sua morte. Dentre os feitos do imperador Selassie estava a defesa de seu povo, impedindo que a Etiópia fosse colonizada. Mas as coisas mudariam para Zevadia e os demais judeus etíopes após a morte do imperador.

Haile Selassie dizia-se da Casa de Judá, descendente de Salomão e da rainha de Sabá, mas judeus e muçulmanos eram tratados como cidadãos de segunda classe sob seu império. Cristãos se comportavam como se fossem a elite, enquanto os demais tinham restrições até mesmo para trabalhar. O pai de Zevadia, Gate, deixou em cartas para os filhos como foi difícil conseguir autorização do império para construir escolas para a comunidade judaica.

Quando Mengistu Haile Mariam assumiu o poder da Etiópia em 1974, religiosos passaram a ser perseguidos. O irmão mais velho de Zevadia chegou a ser preso por 3 anos e meio apenas por ensinar hebraico. Ele havia estudado em Israel e retornou a Etiópia para ensinar hebraico. Foi preso, torturado e houve intenção do governo em condená-lo a morte. Israel interveio e pressionou a ONU e conseguiu ajudar o irmão de Zevadia.

Os judeus etíopes, então, submeteram-se a caminhadas de 700, 800km para o Sudão para escapar do ditador. Lá ficavam em campos de refugiados até que, durante a noite, agentes da Mossad os resgatavam e os levavam secretamente a Israel. Secretamente pois o Sudão era inimigo de Israel.

A mais famosa das operações de Israel para resgatar os judeus etíopes foi a Operação Moses, que inspirou o filme “Missão no Mar Vermelho” da Netflix.

Belaynesh deixou a Etiópia em 1984. Ela tinha 15 anos, havia terminado os estudos e provavelmente seria mandada ao exército. Conseguiu uma bolsa de estudos em Israel, mas teve dificuldade para tirar o passaporte. Então, foi primeiro para o Egito e só depois para Tel Aviv. Quando chegou a Israel, não sabia falar hebraico, mas logo aprendeu. Um irmão seu já vivia no país. Seus pais, muito velhinhos, ficaram na Etiópia. Duas de suas irmãs caminharam para o Sudão.

A comunicação da família era complicada. Uma carta a cada 3 meses, quando conseguiam escrever. Por telefone, tinha de ligar para um vizinho. Até que, um dia, seus pais chegaram a Israel e a família, quase toda já reunida, se estabeleceu em Beersheva (Bersebá).

O pai de Belaynesh sabia apenas o hebraico da Bíblia. Sua mãe, nao sabia nada. Apesar disso, as maiores dificuldades de adaptação se deram por conta do choque cultural. Os mais velhos, que costumavam serem os chefes de família e independentes, precisaram da ajuda dos filhos para ir ao banco, por exemplo. Os etíopes também eram pobre, camponeses e tinham pouco estudo.

Depois de participar do Ulpan Tzion, Zevadia foi trabalhar para a Agência Judaica durante a Operação Moses, o transporte aéreo de 21 de novembro de 1984 a 5 de janeiro de 1985, que trouxe cerca de 8.000 judeus etíopes para o país. Ela trabalhou para ajudar a aliviar as dores de absorção iniciais dos imigrantes.

O pai de Zevadia era o chefe kes (líder religioso) em Gondar e morreu três anos depois de vir para Israel, em 1989.

Enquanto Megistu esteve no poder, as relações entre Israel e Etiópia foram cortadas. Em 1992, com a queda de Megistu, os países voltaram a se relacionar. Na mesma época, Belaynesh entrava para o Ministério de Negócios Estrangeiros, depois de se formar em Relações Internacionais e Estudos Africanos pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Dez anos mais tarde, após ter sido cônsul em Houston e Chicago Belaynesh seria nomeada embaixadora de Israel na Etiópia, em Addis Abeba.

Em 2018, Belaynesh visitou Portugal. Ao jornal português Diário de Notícias, declarou o seguinte:

“Israel para mim foi a terra das oportunidades. Para mim ser uma diplomata a serviço de Israel é um sonho realizado. Saí da Etiópia como adolescente e regressei embaixadora. Fui a primeira em todos os sentidos. A primeira etíope israelita mas também a primeira etíope na Etiópia apesar da imensa diáspora. Lembro-me de, ao entregar as credenciais, o presidente falar em amárico e dizer ser um sonho poder fazê-lo com um embaixador de outro país. Para mim foi maravilhoso. Para um diplomata, conhecer a língua e a cultura é já 50% do trabalho feito. Mas ao mesmo tempo há grandes expectativas. E eu tinha de explicar que estava ao serviço de Israel, mas a fazer tudo para que os dois países que eu amo se dessem bem. Eu sentava-me com as pessoas, bebia café. Um dia andei sete horas para falar com uma mulher em Afar, uma província no nordeste. O carro não chegava lá”

Ainda em entrevista ao Diário de Notícias, a diplomata disse que a Etiópia é mencionada cerca de 40 vezes na Bíblia e, apesar da rainha de Sabá ter visitado Israel, o rei Salomão nunca foi a Etiópia. Logo, Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense, foi o primeiro líder de estado de Israel a ir a Etiópia oficialmente, algo que aconteceu graças ao esforço de Belaynesh.

A questão arabe-israeli também esta presente no dia-a-dia de Zevadia e ela diz que “as coisas não são como se veem na CNN”. Também ocorreu de, enquanto trabalhava em Chicago, um professor palestino dizer que Israel era um estado de apartheid. Revoltada, Zevadia respondeu: “não me diga isso. Eu sou negra. Uma judia africana. E sou israelita. Fiz a minha tese sobre o ANC e a luta contra o apartheid na África do Sul e sei que Israel não é um país de apartheid.”

É sabido que os judeus etíopes sofrem racismo e intolerância religiosa em Israel. Na época da nomeação de Belaynesh, o ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman declarou: “A nomeação é uma mensagem para o público israelense, que atualmente está lutando contra a discriminação. Em Israel, as pessoas são escolhidas com base na capacidade de servir ao público, e não pelo seu sexo ou cor de pele. Estou convencido de que ela representará Israel com respeito. ”

O presidente Peres, então presidente de Israel na época, solicitou felicitar a embaixadora pessoalmente e disse: “Estou muito orgulhoso de você e de seu trabalho. Você é a primeira flor da comunidade etíope. – Estou cheio de orgulho e toda a nação a parabeniza. Você não recebeu nada de graça; todas as suas conquistas são resultado de muito trabalho. Você está hoje enfrentando uma missão histórica e não há dúvida de que você é a pessoa certa para cumpri-la com sucesso, uma embaixadora que esteja profundamente familiarizada com os dois países, incluindo os idiomas, a cultura e nossa história compartilhada. ”

Peres enfatizou que “os imigrantes etíopes ocupam uma posição fundamental na sociedade israelense, seja no exército, na academia, na alta tecnologia, na medicina e agora no Ministério das Relações Exteriores. No entanto, às vezes manifestações de discriminação e racismo aparecem em nosso país. Como nação, não devemos fechar os olhos para isso. Não devemos ignorar isso. O racismo e a discriminação se opõem à essência do povo judeu “.

MK Shlomo Molla (Kadima) elogiou a nomeação de Zevadia, dizendo que é uma “fonte de orgulho para a sociedade israelense e para a comunidade etíope”, e que sua nomeação deve “servir de modelo para todos aqueles que procuram progredir e ter sucesso.”

A ministra do Interior Eli Yishai também parabenizou Zevadia por sua nomeação, dizendo que, embora tenha sido um passo importante para combater o racismo, ainda há muito a ser feito para erradicar o preconceito contra imigrantes novos e veteranos.

Durante sua visita a Etiópia, a embaixadora foi acompanhada de uma junta de médicos da Eye of Zion, organização que presta ajuda humanitária ao redor do mundo. A missão da equipe era a de realizar irurgias para tratar a visão de cerca de mil etíopes, incluindo alguns que já não enxergavam há anos. Ela também visitou a Agência Judaica em Gondar e se reuniu com residentes etíopes para discutir suas imigrações a Israel.

Já como embaixadora de Israel para Ruanda, durante cerimônia de lembrança as vítimas do Holocausto, em 25 de Janeiro de 2016, Zevadia disse que é necessário lembrar o Holocausto para que as lições que a história deixou não sejam esquecidas. “Também celebramos o poder do perdão e do pensamento positivo; precisamos trabalhar juntos para criar um mundo onde não há necessidade do mal”, disse ela. Zevadia descreveu ainda a Alemanha como “um dos aliados mais confiáveis do estado de Israel” desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre a Alemanha Ocidental e Israel em 1956.

Hoje, Zevadia é casada com um também judeu etíope, mãe de três filhos e, atualmente, embaixadora de Israel para Ruanda. Um símbolo de superação, vitória e um nome de grande importância para os Beta Israel.

Referências

FERREIRA, Leonídio Paulo. A refugiada judia que voltou a sua Etiópia como embaixadora de Israel. Diário de Notícias. Publicado em 19 de Novembro de 2018, Portugal. Acessado em 01 de Fevereiro de 2020. Disponível em Diário de Notícias.
BITTON-JACKSON, Lívia. Belaynesh Zevadi: Ambassador To Ethiopia. The Jewissh Press. Publicado em 26 de Agosto de 2016. Acessado em 01 de Fevereiro de 2020. Disponível em Jewish Press.
EICHNER, Itamar. Israeli amabssador visits her Ethiopian hometown. Ynet News. Publicado em 12 de Junho de 2012. Acessado em 01 de Fevereiro de 2020. Disponível em Ynet News.
President Peres meets with Israel’s new ambassador to Ethiopia. Israel Ministry of Foreign Affairs. Publicado em 24 de Junho de 2012. Acessado em 01 de Fevereiro de 2020. Disponível em Israel Ministry of Foreign Affairs.
BISHUMBA, Nasra. Israel, Germany, Rwanda in Holocaust victim’s tribute. DW. Publicado em 25 de Janeiro de 2016. Acessado em 01 de Fevereiro de 2020. Disponível em DW.
RAVID, Barak. Foreign ministry names first Israeli of Ethiopian origin as ambassador. Haaretz. Publicado em 28 de Fevereiro de 2012. Acessado em 01 de Fevereir de 2020. Disponível em Haaretz.
KEINON, Herb. J’lem appoints first Ethiopian-born ambassador. The Jerusalem Post. Publicado em 28 de Fevereiro de 2012. Acessado em 01 de Fevereiro de 2012. Disponível em The Jerusalem Post.

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